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Como gostamos de ser olhados [ou como decidimos viver]

por Cá coisas minhas, em 22.06.16

“Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver. A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e quando o semanário foi proibido pelos russos teve a impressão de ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir os olhos anónimos. Sentia-se quase a sufocar, até que um dia percebeu que a polícia lhe seguia todos os passos, que o seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos anónimos a acompanharem-no: já podia voltar a respirar! Interpelava num tom teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na polícia o público que julgava ter perdido para sempre.
Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Marie-Claude e a filha são deste género.
Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. É neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas.
Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi até à fronteira cambojana unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada tailandesa faz baloiçar violentamente, só sente o seu longo olhar poisado em si.”

A Insustentável Leveza do Ser | Autor: Kundera, Milan

 

É esta interdependência dos outros a maior característica do ser humano. É assim que vivemos em sociedade, sempre esperando pelo parecer do outro. Aceita, ou não aceita? Gosta ou não gosta?

Se pensarmos bem, a maior parte das nossas acções estão mais relacionadas em agradar os outros, no impacto que terão na vida dos outros, do que propriamente em nós. Mas não, pensamos que estamos a fazer aquilo por nós. E os outros, vão desde aqueles que nos estão mais próximos, aqueles que estão mais distantes - são os nossos pais, os nossos filhos, os nossos amigos, os nossos colegas, aqueles que se cruzam connosco na rua, na fila do supermercado, que vão nos transportes.

Por isso às vezes não fazemos o que queremos (ou fazemos coisas que não queremos), com medo de ferir susceptibilidades, de magoarmos alguém, daquilo que irão pensar.

Confesso que cada vez me preocupo menos com isso, e procuro fazer aquilo que realmente quero. Mas é difícil. Porque vivemos muito próximos uns dos outros, e cada um de nós acaba por ser influenciado pelo todo onde está inserido. E depois, aqueles que conseguem esse desligamento, são considerados egoístas, insensíveis (já para não dizer outras coisas menos simpáticas).

Esta é a maior dificuldade: encontrar o meio termo (ou fazer aquilo que realmente queremos, e deitar para trás das costas o que os outros pensam?)

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