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Entrevista a Eduardo Sá [Observador]

por Cá coisas minhas, em 12.05.17

Eduardo Sá deu uma entrevista na redacção do observador, que foi muito mais do que isso. Foi no fundo uma conversa, aberta a muitos.

A entrevista é longa e passa pelos mais diversos assuntos: comportamento das crianças, comportamento dos pais, autonomia, vacinas, adolescência, internet, educação, etc. Gostei muito de o ouvir, mas obviamente que não consegui prestar muita atenção a tudo o que foi dito.

No entanto, algumas das coisas que disse, merecem para mim um especial destaque.

Eu costumo dizer que os bons pais, e sublinhe-se bons, têm três qualidades ou três defeitos consoante a perspetiva que queiram colocar. Têm, invariavelmente, coração grande. Têm a cabeça quente, o que significa que as boas pessoas têm obrigatoriamente mau feitio e falam de mais.

 

Isto foi logo ao início. Começa tão bem. É por isso que eu gosto tanto de o ouvir e ler. Desmistifica tudo. Simplifica o complicado, complicando tudo, simplificando tudo. [Fiquei muito contente, por haver alguém que dê valor a estas minhas características. ]

Os pais saudáveis têm de ter o quanto baste de autoridade. Mas a autoridade é um exercício de sabedoria, de bondade e de sentido de justiça, que faz com que um pai e uma mãe digam: “Não, porque que eu, convictamente, acho que não.”. Quem é que inventou que nós temos de explicar os nãos aos nossos filhos como se fosse um decreto? “Porque que é que tu tens de comer a sopa?” Alinea a)… É como se os pais estivessem a dizer que não e, no fim, estivessem a perguntar aos filhos: “Estive bem?”. E depois, têm de promover a autonomia dos filhos. Se os pais pegarem nestes três condimentos, não estragam os filhos. Nós educamos com bons exemplos, não é com bons conselhos. A autoridade resulta das experiências de todos os dias e, portanto, o que é que os filhos precisam mais?

 

Lá está. O “não, porque não e ponto final” é importante. Não temos que negociar tudo. Não temos que explicar tudo. Somos nós os adultos que sabemos o que é o certo e o errado. E os nossos filhos têm que sentir essa confiança em nós. Têm muitas vezes que ser capazes de o fazer sozinhos, de decidir sozinhos. Mas têm que saber, que se “houver” problema, o pai e a mãe estão lá. Mas é o pai e a mãe, que com essa autoridade, promovem a confiança. E é essa confiança que os torna autónomos. “Nós educamos com bons exemplos, não é com bons conselhos.” É tão isto. E isto é daquelas coisas que é tão óbvia, que parece difícil. Mas depois tu olhas e pensas que não é nada difícil, mas afinal até é. [E é isto que é ser pai/mãe. Sabemos como devemos fazer, mas tantas vezes não o fazemos. Mas não somos perfeitos, nem temos que ser perfeitos]

Se pudesse mandar um bocadinho, quase reabilitava a obrigação de as crianças comerem o queque a meio do recreio sem lavarem as mãos. (...) Crianças saudáveis têm obrigatoriamente de se sujar. (...) E partir pernas de vez em quando. Por uma razão simples. Nós estamos a produzir crianças tão bacteriologiamente puras que, de repente, nunca houve tantas situações imunoalergológicas como existem.

 

Esta fez lembrar-me uma amiga minha. Parecia dito por ela. [Essa é “outra”, que me ajuda tantas vezes a simplificar. A sua forma de estar, aliada a mais experiência que tem do que eu, fez com que hoje passasse a relativizar muito mais as coisas. Obrigado I.]

Era muito bom que os pais percebessem que a raiva é um ansiolítico e um antidepressivo do melhor que há. Quando nós perdemos, cerramos os dentes e dizemos assim: “Macacos me mordam se eu não vou lá para ganhar a seguir”. Isto é dos melhores fatores de crescimento das crianças, ao qual nós nem sempre abrimos a porta, porque temos medo que os nossos filhos sempre que estão um bocadinho tristes — mesmo quando são demagógicos –, isso os possa traumatizar. Não traumatiza. Eu não sei quem é que inventou esta ideia de que as crianças saudáveis não podem estar tristes, mas nós devíamos ser claros: nós nunca aprendemos a ser felizes se não aprendermos a viver com a tristeza. A tristeza é mesmo o melhor antidepressivo do mundo.

 

Pois é. Eles têm que começar logo a saber o que é a frustração. A tristeza. O “não ser tudo como eles gostariam que fosse”. Faz parte. A vida real é assim. E qual é o problema de chorar. Chorem. É assim que eles vão aprendendo a gerir as suas emoções.

“Costumo pedir — era engraçado que tivesse o logótipo do Observador por baixo — que à entrada dos jardins de infância houvesse um letreiro muito grande a dizer assim: “É proibido ensinar a ler e a escrever no jardim de infância”. Não é por vontade das educadoras — as educadoras são um enclave de saúde mental que existe no sistema educativo –, mas é pela pressão das escolas e, às vezes, pela pressão dos pais. É bom que nós tenhamos uma regra….”

 

Isto é um mal que vem desde á muito. Cada vez querem por os miúdos a fazerem as coisas mais cedo, quando eles ainda nem sequer percebem o que estão a fazer. Há tanta coisas que eles têm que aprender antes de aprenderem a ler e a escrever.

“As crianças saudáveis aprendem do todo para a parte. A escola ensina-os da parte para o todo. As crianças, quando lêem um texto, ou vêem um quadro, interpretam primeiro e lêem depois, ou se preferir, interpretam em tempo real. O que é que a escola faz? Exatamente o contrário.”

 

Eu também, já fiz o contrário muitas vezes. E no outro dia, apercebi-me exatamente disso. Quando a miúda pede para ler uma história antes de dormir. Eu só quero despachar aquilo: ler a história para ela ir dormir e pronto. E ela, às vezes, nem ouve o que eu estou a ler, porque quer fazer perguntas, quer questionar, já está a interpretar e eu erradamente a dizer, “ouve a história e já vais perceber”. Não estou assim tão errada. Isto é gerível, eu sei. As vezes é que a paciência se esgota, e eu atropelo-me toda. Ela tem que saber esperar pelas várias etapas da história e viver as mesmas. Mas também tem toda a legitimidade para fazer perguntas e interpretar a história à maneira dela. Acho delicioso que ela me pergunte, ao ouvir a história do capuchinho vermelho, “mas porque é que a mãe não foi com ela”.

Está na altura do Ministério da Educação, e já agora do sr. Presidente da República, que pode fazer um pacto de regime… eu não entendo o que é que tem de supérfluo os vários partidos sentarem-se com quem tem pensado a educação ao longo dos tempos e dizerem assim: “O que é que nós queremos da educação nos próximos 20 anos?”. Porque é que isto é atentatório daquilo que separa as opções ideológicas das pessoas? Não é. Nós temos porventura um modelo escolar que tem muito de século XIX, muitos professores que ainda estão muito mais do que eles desejariam no século XX e as crianças estão no século XIX. Como é que a educação pode funcionar assim, de maneira a que se adeque aos tempos que correm? Não se adequa. Se calhar há aqui muitos jovens jornalistas que quando chegam não são jovens jornalistas, são aristocratas. E nós dizemos assim: “Olhe, faça isso” e eles dizem assim: “Porque é que eu não fiz? Porque não me disse exatamente como é que eu havia de fazer”. O que é que se ganha com isto?

 

Isto é tudo um assunto, para o qual terei que dedicar um post inteiro. Refiro, desde já, que concordo em absoluto com o que disse.

“Se o Estado entende que as crianças têm de entrar no ensino obrigatório, e quando não vão à escola aos seis e aos sete, acendem-se não sei quantos alarmes e as crianças são consideradas em perigo, juro que não entendo como há pais a não vacinar os filhos, que os expõem a perigos em consequência disso, que põem os outros em perigo por causa das opções muito duvidosas que eles têm e que isto não tenha consequências.”

 

Pois lá está. Mais um a argumentar o óbvio. Parece óbvio para tanta gente. Não sei como não se faz nada. [Já falei deste assunto aqui no blog, por isso não me adianto mais]

Estas foram algumas das coisas que me chamaram mais atenção. Se tiverem oportunidade, dêem uma vista de olhos à entrevista. Vale a pena.






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