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As minhas pessoas

por Cá coisas minhas, em 21.07.17

Reparo agora que das 9 pessoas top da minha vida, 3 são caranguejos, 4 são sagitários e 2 são virgem.

São as minhas pessoas preferidas.

Cada um deles “surgiu-me” em momentos diferentes. E cada um deles tem um papel diferente na minha vida.

Mas acho curioso que sejam pessoas tão parecidas.

Já não vou para nova. Já conheci muita gente. Já estive próxima de muita gente, que entretanto se foi afastando. Já me afastei e voltei a juntar. E portanto, já percebi que as pessoas que ficam na nossa vida, são as que são para ficar. Aquelas com quem nós conseguimos estar, mesmo sem estar. Aquelas com quem não é preciso fazer conversas de circunstância. Aquelas cujos silêncios não incomodam. Aquelas cujas “piadas” saem sem filtro.

É normal que a selecção vá sendo feita. E que os que ficam sejam semelhantes.

 

Os meus 3 caranguejo [Já tive mais um, a minha avó].

  • O meu marido.
  • A minha irmã.
  • Uma amiga.

Os três são tão diferentes. E ao mesmo tempo tão iguais. O pragmatismo. O sentido de humor. O “cuidado” pelo outro. A empatia. O “chamar-me à razão”, os três de maneiras tão diferentes, mas a fazê-lo.

 

Os meus 4 sagitário

  • O meu irmão
  • A minha filha
  • Um amigo
  • Uma amiga

Estão em maioria. Aqui noto mais diferenças, entre eles e elas. Eles, cuidadores, presentes mesmo sem se fazerem notar. Elas, apesar de uma pequenina, e outra “grande”, parecidas: muito sociáveis, divertidas, despistadas, com vontades muito próprias. Os quatro a darem-me tanto sempre.

 

As minhas 2 virgem

  • A minha mãe
  • A minha cunhada

Com quem eu tenho uma relação mais de “choque”. Temos pontos de vista diferentes em relação a muita coisa. Mas sempre presentes, ainda que não o demonstrem de forma tão transparente. [Como eu, ao fim e ao cabo]. Mas sem nunca “falharem-me”.

 

Eu sou leão. [A minha melhor amiga de infância era leão. Mas a vida definiu-nos caminhos diferentes. Tenho sérias dúvidas que os "leão" se aguentem uns aos outros]

 

Sempre tive com os signos uma relação muito dúbia. Se por vezes acho graça e concordo com as características referidas, outras vezes, acho tudo uma “fantochada”. Mas esta casualidade das pessoas que me são próximas serem todas à volta dos mesmos signos, não deixa de ser muito interessante e quererá com certeza dizer alguma coisa. [Ou então não.]

 

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Coisas em introspectiva #07

por Cá coisas minhas, em 14.07.17

Tenho um lapso que me ocorre com muita frequência (para não dizer sempre): dizer boa tarde, em vez de bom dia, quando ainda nem 12h são (as vezes logo às 08h da manhã sai-me um boa tarde)

Isto pode ser interpretado de duas formas:

  • ou é um sinal que já comecei o dia à tanto tempo, e portanto parece-me que já vou na parte da tarde;
  • ou, tenho tanta vontade que o dia passe depressa que já digo boa tarde como forma de expressar esse sentimento.

[Se calhar é ambas. De qualquer das formas, é sinal que o cérebro já vai mais à frente que o relógio]

Não. Espera. Encontrei uma terceira.

É esta minha característica que herdei da minha mãe: despachada. Querer despachar tudo depressa. [Até o dia que mal começa.]

 

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Diversidade | Diferença | Heterogeneidade

por Cá coisas minhas, em 12.06.17

No outro dia a minha filha brincava no parque com uma menina da idade dela. Estavam ambas sentadas e a mãe da outra estava lá ao pé. Eu estava ligeiramente afastada, deixando-a brincar e conversar.

Primeiro, critiquei mentalmente a outra mãe. Pensei, “mas que mania que têm os adultos de se meteram no meio das crianças, assim nunca estão os miúdos totalmente à vontade para fazer novas amizades”. Tão errada que eu estava.

Passado um bocado, vi um aparelho daqueles que ajudam as crianças a andar lá encostado.

Uma outra miúda foi ter com elas e insistiu para que fossem brincar à apanhada. A minha levantou-se logo. De seguida, a mãe ajudou a outra menina a levantar-se. A minha primeiro disse “não consegues andar ou quê?”. A mãe, calmamente explicou que a “x” precisava daquilo para conseguir andar. A minha filha ouviu em silêncio e no minuto seguinte, já estavam as duas a correr e a jogar à apanhada. Gargalhadas daquelas mesmo boas. Não falou mais no assunto. No final da brincadeira, despediu-se dela, como sempre faz. A outra deu-lhe um abraço mesmo apertado.

E eu pus-me a pensar. A facilidade com que as crianças desta idade lidam com a diferença, é impressionante. Querem lá saber. Elas não sentem diferente. Elas brincam de igual forma. Riem das mesmas coisas.

Porque é que depois a diferença começa a ser notada e falada? Onde é que algures na nossa vida perdemos esta capacidade?

Não tenho dúvida nenhuma que são igualmente pessoas como aquela mãe, que fazem a diferença. Que não privam a filha de nada. Que a educam exactamente nos mesmos princípios que nós educamos os nossos. E que têm esta tranquilidade em explicar às outras crianças algo de forma tão natural.

A minha irmã teve vários e sérios problemas com a fala. Nunca fiz questão de intervir quando ela falava e não a entendiam. Sempre fiquei calada, à espera que ela se fizesse entender. Sempre foi muito social e despachada. A minha mãe sempre a deixou andar à solta e a incentivou à vida social. Hoje tem muito mais vida social do que eu.

Há cerca de uns 2 anos, descobri na creche da minha filha uma criança com as mesmas dificuldades. Um dia a mãe no meio de uma conversa diz-me “ele tem problemas”. Saí nesse dia de lá numa revolta que só visto. Problemas tem certamente a senhora. E aquele miúdo com aquela mãe também os terá. Mas não os que ela julga que ele tem.

Nesta creche onde ela está agora, está lá uma menina com síndrome de down. Se a minha filha nota alguma coisa de diferente naquela menina? Não. Perfeitamente autónoma e a fazer as mesmas coisas que os outros. Lá está, mais uma vez porque tem uns pais que incentivam isso mesmo.

A minha filha brinca diariamente com crianças com diferentes cores de pele. Com pais de diferentes países. Com culturas diferentes. Umas com cabelo louro. Outras castanho. Umas com óculos. Outras sem eles. Mas todas correm. Todas riem. Todas brincam. Todas fazem plasticinas. Todas cantam músicas. Todas fazem birras. Todas choram. Todas são diferentes e todas são iguais.

Volto a dizer. Não sei onde perdemos esta capacidade e quando começamos a complicar o que não tem complicação. Mas gostava muito que ela se mantivesse assim. Farei o que conseguir para isso.

 

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Precariedade no empenho

por Cá coisas minhas, em 04.06.17

Comecei a minha vida de precária em 2003. Estamos em 2017. Tenho 36 anos. E continuo precária. Não tive sempre a mesma função. Já participei em vários projectos. Já fiz muitas coisas. Conheci muita gente. Mas “estabilidade profissional” é coisa que não conheço [espero ansiosamente algum dia saber como é]. O que é certo, é que independentemente da situação precária em que me fui encontrando, sempre gostei daquilo que fiz, e sempre o fiz com rigor, paixão e vontade de fazer o melhor.

 

Isto tudo, para chegar onde? Choca-me esta falta de vontade que me vai passando pelos olhos, quando encontro pessoas a trabalhar. Este ar “estou aqui a fazer isto, mas podia estar a fazer outra coisa qualquer, desde que me paguem”. Pior, por acharem que já têm um contrato, julgarem que não têm que se preocupar com mais nada.

 

Sempre tive que dar o litro. Ansiar por um feedback positivo do outro lado, pois sempre foi isso que me foi garantido algum trabalho (mesmo que precário, é trabalho). E depois, uma pessoa vê alminhas que pouca experiência têm, não tiveram que lutar grande coisa para terem o que têm, e mesmo assim acharem que “desde que não me chateiam, eu estou aqui e faço o que vocês acharem que eu devo fazer”.

 

Zero autonomia. Zero iniciativa. Zero desenrascanço.

 

Não quero transformar este post numa questão de conflito de gerações, mas o que é certo é que estas camada mais jovens que estão a chegar ao mercado de trabalho são assustadoras. Acredito, que também existam situações contrárias a esta. De qualquer das formas, esta ideia generalizada “eu posso tudo, e não preciso de fazer grande coisa para o ter” é algo que começa a estar enraizada já na mentalidade desta malta.

 

Ora, isso faz-me imensa confusão. Pois, se eu acabei o curso numa altura má (diziam os meus professores), esta malta que acabou os cursos no meio da crise também não teve muita sorte. Por isso, donde vem este desprendimento todo? Esta sensação que têm que são os maiores, e que as oportunidades não se procuram, que elas aparecem?

 

E depois quando encontram alguma coisa é isto:

desinteresse político.jpg

Não ouvem nada do que devem ouvir. Escolhem apenas aquilo que querem ouvir.

Ver, só vêem o que está a frente dos olhos. O resto, está quieto.

Falar, esquece. "Mas alguém me perguntou alguma coisa? "Ai, eu não sei"

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Sobre o dia da criança

por Cá coisas minhas, em 02.06.17

Sendo dia das crianças, e como ela já está em muita boa idade de perceber coisas importantes, resolvi explicar-lhe o que é o dia das crianças.

Para além de lhe dar o presente que ela ansiava [sim, não consegui resistir a esse consumismo desenfreado, nem tanto pelo marketing, mas porque ela andava ansiosa à espera do dia para receber um brinquedo] também tivemos uma conversa interessante.

Quando lhe expliquei que este dia era sobre TODAS AS CRIANÇAS DO MUNDO, comecei por lhe perguntar o que ela achava que todas as crianças deveriam ter. Resposta: “brinquedos”. Lá lhe expliquei que nem todas as crianças têm brinquedos, e que isso não era fundamental. O que é fundamental sim é que todas as crianças brinquem. “É possível brincar sem brinquedos?”, perguntei eu. Resposta “Não” [para vermos como o “plástico” está implícito já na vida destes miúdos]. Então, lá fizemos um exercício de todas as brincadeiras que ela brinca, sem ter acesso a brinquedos. Percebeu e concordou.

Depois pedi-lhe que me dissesse mais coisas que ela achasse que as crianças deveriam todas ter: miminhos, sol, ar, comida. Foram as respostas que foram surgindo e sobre as quais nós fomos conversando.

A conversa teve vários momentos muito interessantes. Isto deixa-me sempre numa ambiguidade muito grande, porque se por um lado acho importante que ela perceba “o mundo real”, quando lhe explico que há crianças que são privadas desses direitos, fico sempre na dúvida se devo ou não passar-lhe essa informação. Porque é uma informação má. Que dói. Enfim.

É certo que lhe compro coisas. Que lhe dou mais do que ela precisa. Mas é fantástico ver a felicidade dela sempre que tal acontece. Ela pede muito. E ouve também muitos nãos. E isto é um exercício constante.

Foi por isso que achei importante ter esta conversa com ela. Para que ela entende que há coisas pelas quais ela, enquanto criança, deverá sempre lutar. Para ela, e para os outros.

 

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Há passado que gostava de ter no presente

por Cá coisas minhas, em 23.05.17

Foi durante o ensino secundário que criei grande parte dos meus laços de amizade. Laços que julguei que ficariam para sempre. Afinal não ficaram. Quer dizer, eles ficaram. Porque o sentimento está lá. Mas a vivência desses laços foi-se dissipando. E não foi a chegada à vida adulta que fez isso. Porque eles foram ficando, mesmo depois disso. Foi a vida de cada um de nós que nos afastou. Cada um foi viver para um sítio diferente. Cada um foi trabalhar para um sítio diferente. E se antes de casarmos e/ou termos filhos, ainda conseguíamos manter isso, com os casamentos, com os filhos, com todos os compromissos pessoais e profissionais com que vamos enchendo as nossas agendas, o tempo para estarmos uns com os outros foi escasseando. Porque deixamos de definir isso como prioritário.

 

Confesso que sinto falta. Mas confesso também que nada faço para alterar isso. Porque lá está, estou sempre a adiar, face a tudo aquilo que vou definindo como prioritário.

 

No entanto, algum contacto vai surgindo. Seja pelas conversas on-line, seja por telefone. [Há uma dessas pessoas, que contraria essa tendência. E que me liga de vez em quando. E que não “cobra” a falta de notícias. É por isso que gosto tanto dele, e acho que este sim, vai ficar para sempre] E é quando surgem estes momentos, que me esqueço que já tenho mais de 35 anos, um trabalho, um marido, uma filha, uma casa para gerir. E me lembro de quando éramos só nós todos. Das coisas que fazíamos. Daquilo que nos fazia rir. Dos fins de semana prolongados que fazíamos questão em marcar juntos. Mas o que gosto mesmo é de me sentir assim, mas a partilhar o presente.

 

Tenho efectivamente muita pena, que não seja possível vivermos a vida de agora, uns com os outros. E não falo de encontros sazonais, porque o que se faz nesses encontros é reviver o passado. Gostava mesmo de tê-los ainda aqui no meu dia a dia. Saber das coisas deles, partilhar as minhas coisas.

 

Ainda o consigo fazer com um. Gostaria de o fazer com pelo menos mais três. Mas pronto, a vida é assim. E não há culpados aqui. Todos nós temos feito as nossas opções. E eu sei, que o casulo onde me meto às vezes, é difícil de lá conseguir entrar.

 

[Nem preciso de dizer nomes. Porque se este post for lido por algum de vós, claramente perceberá de quem eu falo. E não são reclamações. São constatações]

 

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Entrevista a Eduardo Sá [Observador]

por Cá coisas minhas, em 12.05.17

Eduardo Sá deu uma entrevista na redacção do observador, que foi muito mais do que isso. Foi no fundo uma conversa, aberta a muitos.

A entrevista é longa e passa pelos mais diversos assuntos: comportamento das crianças, comportamento dos pais, autonomia, vacinas, adolescência, internet, educação, etc. Gostei muito de o ouvir, mas obviamente que não consegui prestar muita atenção a tudo o que foi dito.

No entanto, algumas das coisas que disse, merecem para mim um especial destaque.

Eu costumo dizer que os bons pais, e sublinhe-se bons, têm três qualidades ou três defeitos consoante a perspetiva que queiram colocar. Têm, invariavelmente, coração grande. Têm a cabeça quente, o que significa que as boas pessoas têm obrigatoriamente mau feitio e falam de mais.

 

Isto foi logo ao início. Começa tão bem. É por isso que eu gosto tanto de o ouvir e ler. Desmistifica tudo. Simplifica o complicado, complicando tudo, simplificando tudo. [Fiquei muito contente, por haver alguém que dê valor a estas minhas características. ]

Os pais saudáveis têm de ter o quanto baste de autoridade. Mas a autoridade é um exercício de sabedoria, de bondade e de sentido de justiça, que faz com que um pai e uma mãe digam: “Não, porque que eu, convictamente, acho que não.”. Quem é que inventou que nós temos de explicar os nãos aos nossos filhos como se fosse um decreto? “Porque que é que tu tens de comer a sopa?” Alinea a)… É como se os pais estivessem a dizer que não e, no fim, estivessem a perguntar aos filhos: “Estive bem?”. E depois, têm de promover a autonomia dos filhos. Se os pais pegarem nestes três condimentos, não estragam os filhos. Nós educamos com bons exemplos, não é com bons conselhos. A autoridade resulta das experiências de todos os dias e, portanto, o que é que os filhos precisam mais?

 

Lá está. O “não, porque não e ponto final” é importante. Não temos que negociar tudo. Não temos que explicar tudo. Somos nós os adultos que sabemos o que é o certo e o errado. E os nossos filhos têm que sentir essa confiança em nós. Têm muitas vezes que ser capazes de o fazer sozinhos, de decidir sozinhos. Mas têm que saber, que se “houver” problema, o pai e a mãe estão lá. Mas é o pai e a mãe, que com essa autoridade, promovem a confiança. E é essa confiança que os torna autónomos. “Nós educamos com bons exemplos, não é com bons conselhos.” É tão isto. E isto é daquelas coisas que é tão óbvia, que parece difícil. Mas depois tu olhas e pensas que não é nada difícil, mas afinal até é. [E é isto que é ser pai/mãe. Sabemos como devemos fazer, mas tantas vezes não o fazemos. Mas não somos perfeitos, nem temos que ser perfeitos]

Se pudesse mandar um bocadinho, quase reabilitava a obrigação de as crianças comerem o queque a meio do recreio sem lavarem as mãos. (...) Crianças saudáveis têm obrigatoriamente de se sujar. (...) E partir pernas de vez em quando. Por uma razão simples. Nós estamos a produzir crianças tão bacteriologiamente puras que, de repente, nunca houve tantas situações imunoalergológicas como existem.

 

Esta fez lembrar-me uma amiga minha. Parecia dito por ela. [Essa é “outra”, que me ajuda tantas vezes a simplificar. A sua forma de estar, aliada a mais experiência que tem do que eu, fez com que hoje passasse a relativizar muito mais as coisas. Obrigado I.]

Era muito bom que os pais percebessem que a raiva é um ansiolítico e um antidepressivo do melhor que há. Quando nós perdemos, cerramos os dentes e dizemos assim: “Macacos me mordam se eu não vou lá para ganhar a seguir”. Isto é dos melhores fatores de crescimento das crianças, ao qual nós nem sempre abrimos a porta, porque temos medo que os nossos filhos sempre que estão um bocadinho tristes — mesmo quando são demagógicos –, isso os possa traumatizar. Não traumatiza. Eu não sei quem é que inventou esta ideia de que as crianças saudáveis não podem estar tristes, mas nós devíamos ser claros: nós nunca aprendemos a ser felizes se não aprendermos a viver com a tristeza. A tristeza é mesmo o melhor antidepressivo do mundo.

 

Pois é. Eles têm que começar logo a saber o que é a frustração. A tristeza. O “não ser tudo como eles gostariam que fosse”. Faz parte. A vida real é assim. E qual é o problema de chorar. Chorem. É assim que eles vão aprendendo a gerir as suas emoções.

“Costumo pedir — era engraçado que tivesse o logótipo do Observador por baixo — que à entrada dos jardins de infância houvesse um letreiro muito grande a dizer assim: “É proibido ensinar a ler e a escrever no jardim de infância”. Não é por vontade das educadoras — as educadoras são um enclave de saúde mental que existe no sistema educativo –, mas é pela pressão das escolas e, às vezes, pela pressão dos pais. É bom que nós tenhamos uma regra….”

 

Isto é um mal que vem desde á muito. Cada vez querem por os miúdos a fazerem as coisas mais cedo, quando eles ainda nem sequer percebem o que estão a fazer. Há tanta coisas que eles têm que aprender antes de aprenderem a ler e a escrever.

“As crianças saudáveis aprendem do todo para a parte. A escola ensina-os da parte para o todo. As crianças, quando lêem um texto, ou vêem um quadro, interpretam primeiro e lêem depois, ou se preferir, interpretam em tempo real. O que é que a escola faz? Exatamente o contrário.”

 

Eu também, já fiz o contrário muitas vezes. E no outro dia, apercebi-me exatamente disso. Quando a miúda pede para ler uma história antes de dormir. Eu só quero despachar aquilo: ler a história para ela ir dormir e pronto. E ela, às vezes, nem ouve o que eu estou a ler, porque quer fazer perguntas, quer questionar, já está a interpretar e eu erradamente a dizer, “ouve a história e já vais perceber”. Não estou assim tão errada. Isto é gerível, eu sei. As vezes é que a paciência se esgota, e eu atropelo-me toda. Ela tem que saber esperar pelas várias etapas da história e viver as mesmas. Mas também tem toda a legitimidade para fazer perguntas e interpretar a história à maneira dela. Acho delicioso que ela me pergunte, ao ouvir a história do capuchinho vermelho, “mas porque é que a mãe não foi com ela”.

Está na altura do Ministério da Educação, e já agora do sr. Presidente da República, que pode fazer um pacto de regime… eu não entendo o que é que tem de supérfluo os vários partidos sentarem-se com quem tem pensado a educação ao longo dos tempos e dizerem assim: “O que é que nós queremos da educação nos próximos 20 anos?”. Porque é que isto é atentatório daquilo que separa as opções ideológicas das pessoas? Não é. Nós temos porventura um modelo escolar que tem muito de século XIX, muitos professores que ainda estão muito mais do que eles desejariam no século XX e as crianças estão no século XIX. Como é que a educação pode funcionar assim, de maneira a que se adeque aos tempos que correm? Não se adequa. Se calhar há aqui muitos jovens jornalistas que quando chegam não são jovens jornalistas, são aristocratas. E nós dizemos assim: “Olhe, faça isso” e eles dizem assim: “Porque é que eu não fiz? Porque não me disse exatamente como é que eu havia de fazer”. O que é que se ganha com isto?

 

Isto é tudo um assunto, para o qual terei que dedicar um post inteiro. Refiro, desde já, que concordo em absoluto com o que disse.

“Se o Estado entende que as crianças têm de entrar no ensino obrigatório, e quando não vão à escola aos seis e aos sete, acendem-se não sei quantos alarmes e as crianças são consideradas em perigo, juro que não entendo como há pais a não vacinar os filhos, que os expõem a perigos em consequência disso, que põem os outros em perigo por causa das opções muito duvidosas que eles têm e que isto não tenha consequências.”

 

Pois lá está. Mais um a argumentar o óbvio. Parece óbvio para tanta gente. Não sei como não se faz nada. [Já falei deste assunto aqui no blog, por isso não me adianto mais]

Estas foram algumas das coisas que me chamaram mais atenção. Se tiverem oportunidade, dêem uma vista de olhos à entrevista. Vale a pena.






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Sobre o dia da mãe

por Cá coisas minhas, em 07.05.17

Fui mãe já depois dos 30, assim como praticamente todas as mulheres com as quais me relaciono. Nomeadamente, as minhas amigas.

 

Posso garantir, que todas nos tornamos mães extremosas, carinhosas, cuidadoras, presentes. A par disso, mantivemos as nossas características, personalidades e gostos: vontade de chegar mais longe na carreira, prazer em beber um copo de vinho, saídas com amigos, namorar com os companheiros. [E muito mais, é claro].

 

Conciliar isto tudo é do catano. Mas se assim não fosse, julgo que esta actividade de ser mãe não seria tão prazerosa.

 

Gostamos de nos sentir úteis. Gostamos de nos sentir bonitas. Gostamos que apreciem o nosso desempenho. Gostamos de elogios. Gostamos de ser bem sucedidas. Gostamos de ser amadas.

 

Às vezes caímos. Mas uma de nós ajuda a outra a levantar-se. E quantas vezes são as nossas pequenas crias que nos “obrigam” a levantar (ou melhor, nem nos deixam caír).

 

Sempre julguei que seria mãe mais cedo. Agora vejo que fui mãe na altura certa. Quando já sabia o que queria para a minha vida [Mais ou menos, vá, que isto é sempre assim algo que se vai construindo]. Quando tinha perto de mim uma equipa de mães/amigas/trabalhadoras para me auxiliar neste percurso.

 

A minha mãe foi mãe bem mais cedo do que eu (mais de 10 anos). Outros tempos. Isso não fez dela nem melhor nem pior mãe do que eu. Foi a minha mãe.

 

Mas ser mãe aos 20, quando ainda tudo acerca de nós próprias está por se definir, não é a mesma coisa. Porque todas nós, mães, sabemos que a partir do momento em que eles nascem, tudo muda. Todas as nossas decisões e escolhas, são pensadas em função deles. Valhe-nos, a nós, mães tardias, um pouco mais de experiência na “gestão da vida”. Já tivemos mais obstáculos, mais desilusões, mais conquistas, e por isso custa-nos menos lidar com algumas dessas decisões.

 

Um beijo enorme a todas as mães com as quais eu tenho o privilégio de partilhar esta circunstância da maternidade. Somos todas umas SUPER MÃES.

 

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Coisas em introspectiva #05

por Cá coisas minhas, em 03.05.17

Há coisas que acontecem, que se ouvem, que se vivem e que das duas uma: ou sempre existiram e tu nunca lhes deste importância (e ás tantas agora, depois de se repetirem tanto, começas a dar), ou só começam a surgir agora porque de repente resolveram chatear-te a mona…

Não sei. Na certa, acontecem de ambas a toda a gente. E também muitas vezes, acontecem ao mesmo tempo. Não sei.

Mas sei que (verdade de la palice), as coisas só têm a importância que nós lhe damos. A sabedoria de gerir emoções, é mesmo essa: escolher aquilo a que havemos de dar importância.

Tenho para mim que o amadurecimento emocional, não é grande amigo disto. Porque há cada vez mais coisas que me “moem o juízo”. Eu bem tento ignorar, não dar importância. Mas é difícil.

Terei o meu mau feitio mais apurado?

Ou estou cada vez mais sensível à falta de educação bom senso dos outros?

Ou o meu conceito de bom senso é assim tão diferente?

Estarei assim tão intolerante às críticas só porque sim?

Ou sou eu que vejo crítica onde não há?

Estarei a dar assim tanta importância à educação que considero básica?

Ou são as pessoas que estão cada vez mais a borrifar-se para tudo?

[Se calhar é isto tudo junto]

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Humanidade [Escrevendo sobre a palavra]

por Cá coisas minhas, em 21.04.17

hu·ma·ni·da·de

(latim humanitas, -atis)

substantivo feminino

  1. O conjunto dos homens.
  2. Natureza humana.
  3. .Gênero humano.
  4. Bondade.
  5. Benevolência, compaixão.

"humanidade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/humanidade 

 

Ao ler este artigo, reflecti sobre algo que me tem sempre afligido: a falta da humanidade na humanidade. Confuso? Eu explico.

[Mas preparem-se porque a reflexão vai ser longa e vai bater em muitas coisas]

Não tive a minha filha neste hospital, mas em outro (igualmente público). E apesar de não ser totalmente igualmente ao que aqui está descrito, e apesar de ter corrido tudo muito bem, e ter encontrado bons médicos e enfermeiros (no geral, vá), não são dias (5, para ser mais precisa) que recorde com alegria. Para já, assume-se que se és mãe (mesmo que seja à dois minutos) tens que saber tudo. Depois, o espaço é pequeno e partilhado por várias (éramos três). Depois, o pai só pode estar contigo das 12h as 20h (como é que vais tomar o pequeno almoço, tomar banho, casa de banho, etc… e deixas a tua filha ali sozinha???). Depois a médica observa-te TODOS os dias e NÃO TROCA UMA ÚNICA PALAVRA CONTIGO. Depois, HÁ SEMPRE bebés a chorar (seja o teu, seja o do lado, seja o do quarto lá no fundo do corredor) e tu não consegues dormir (tive 5 dias naquele hospital, 4 noites sem dormir, repito 4h de privação de sono).

A saga continuou depois de sairmos de lá: no centro de saúde. Todas as vezes que fui às vacinas, senti-me “mais uma que vem para aqui chatear”. A minha filha ficou com uma médica de família, à qual ainda fomos a algumas consultas (mantendo no entanto sempre consultas com o pediatra). Mas cada vez que lá ia, a médica era mal disposta, falava comigo como se eu fosse burra e tivesse a obrigação de fazer/saber tudo o que ela lá entendia.

Posto isto tudo, evito o máximo que posso consultas ou outras coisas do género no sector público. “Armada em rica”, há quem o considere. Ou “armada em esquisita”, porque tecnicamente falando não tenho nada de negativo a referir em qualquer uma das situações que vivi. Mas a falta de humanidade esteve sempre presente. E é isto que me tira do sério. Porque as pessoas exigem tudo e mais alguma coisa. A ciência evolui, a informação evolui, tudo evolui, menos os homens. As pessoas exigem bons carros, bons telemóveis, boas instalações, bons médicos, bons professores, boas casas, boas roupas. Tudo giro, agradável e competente (não, para sermos sinceros, não, o que querem é o melhor "especialista da praça", lá que seja competente isso é outra história).

Não tenho nada a ver com as opções de cada um. Repito, não tenho nada a ver com as opções de cada um. Mas choca-me que as pessoas não exijam mais para elas próprias. [Revolta-me acima de tudo, aqueles que julgam que o dinheiro é tudo. “Não és rica, não tens dinheiro para exigir, pois não? Então come e cala”.]

Esta falta da humanidade vê-se em muitas mais outras coisas. Na falta de capacidade de se colocar no lugar do outro. Na falta de respeito pelo outro, que na maior parte das vezes nem é entendida como tal, é mais do género “então, é a minha opinião”, ou “eu digo/faço o que eu quero”, ou “que mal tem????”. O egoísmo sobrepõe-se a tudo.

Eu não sou rica. Não tenho efectivamente dinheiro para exigir tudo aquilo que gostaria. Mas sou muito exigente com aquilo que quero para mim e para os meus. E esta falta de humanidade, seja dirigida a mim, seja dirigida aqueles que me são mais próximos, é das coisas que me faz mais moer a alminha.

A humanidade evolui. Mas a humanidade das pessoas está em vias de extinção. E o que é mais grave ainda, quanto a mim, é que a maior parte das pessoas, nem vê isso.

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