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Cá coisas minhas

Este é o meu blog. Onde falo sobre múltiplas coisas. As coisas que me vêm a cabeça.

O que vejo - diário 4

28.03.20 | Ana

Do meu quintal...

Em frente.

Vejo o pátio com as casas dos vizinhos. Vejo os estendais de roupa que continuam a ter roupas. Vejo as senhoras a estender roupa. Vejo um bebé com 1 ano a iniciar-se a andar - às vezes com o pai, outras vezes com o avô. Vejo o meu vizinho do lado, todas as manhãs a passar a frente da minha casa, para ir ao café buscar o pão - o dele e o meu (que me deixa ali no portão, a uma distância segura).

Atrás.

Vejo um terreno enorme, cheio de ervas a crescerem por conta própria. Vejo a horta do meu vizinho.

Vejo os meus vizinhos às vezes na horta. Vejo outra casa com vizinhos, que vão aparecendo na rua e falando com os meus vizinhos do lado.

Vejo uma outra casa, com um jardim muito bem arranjado. E vejo a vizinha, várias vezes a sacudir tapetes, estender roupa, arranjar as plantas do seu jardim, e limpar.

Vejo mais casas, mas não vejo as pessoas que lá moram. Não sei se lá estão.

Sei que por aqui, as coisas não mudaram muito.

O café da aldeia está fechado. A dona só abre de manhã para vender o pão. Esse contacto social, entre todos, desapareceu.

Mas no geral, as pessoas continuam a fazer a sua vida normal. Vejo as pessoas a passarem para as hortas. Vejo as pessoas a passarem a correr. Vejo pessoas a passarem a caminhar. Vejo casais a passearem com crianças. Até aí, tudo bem.

O pior, é que continuo a ver filhos a irem almoçar a casa de pais. Netos a ficarem com avós. Velhotes a falarem uns com os outros, sem a devida distância de segurança. Tenho medo por eles. Tenho medo que estas pessoas só acordem já tarde demais.

 

Notas soltas - diário 3

27.03.20 | Ana

A Marta fez 9 meses.

Fizemos um bolo para comemorar. Ela ainda não comeu.

No entanto, tem uma alimentação cada vez mais diversificada, pelo que (havendo paciência) irei aventurar-me com algumas coisinhas diferentes para ela. Depois dou feedback.

Faz já imensos sons. O que ela mais gosta é colocar um brinquedo na boca, e ir batendo enquanto faz som. É essa a sua gracinha mais recente. Não gatinha. Rebola apenas. Mas prefere estar sentada. Adora ver dançar e cantar. Imita.

A Maria está a ler muito bem. Finalmente, lê sem "tropeçar". Tem feito as atividades da escola, embora às vezes com alguma resistência. Felizmente a professora não mandou uma calendarização rígida de atividades, apenas a indicação de coisas a fazer (sem prazos). Se assim fosse, por aqui seria complicado. É também muito complicado para mim saber como lhe hei-de explicar as coisas, nomeadamente matemática. Eu aprendi de uma determinada forma. Mas agora, os métodos são outros.

Dança muito. Canta muito. Toma conta da irmã. Brinca com a irmã. Brinca com as suas bonecas. Faz vídeos. Vê youtubers. 

O meu marido está a trabalhar. A fábrica onde ele trabalha não para, e consequentemente ele também não. É horrível. Tem um medo enorme de trazer o vírus para casa. Tem mil cuidados. E mal se chega a nós. É duro.

Eu.

Ocupada com o trabalho. Ocupada com as miúdas. Ocupada com as refeições. Ocupada com a desinfestação constante de tudo. E farta disto. Procuro a via mais otimista de lidar com isto, e as ocupações constantes diárias não me deixam muito tempo livre para deprimir. Mas isto é muito duro, e sei lá durante mais quanto tempo vamos viver assim.

Dizem que isto nos vai fazer dar mais importância às pessoas. Aos afectos. A aprender a viver em colectivo, porque as nossas ações implicam sobre os outros.

Será? Ás vezes penso é que ainda vamos ficar mais isolados. Mais afastados. Reduzir ao máximo os nossos contactos, com medo. Nunca pensei que fôssemos viver algo semelhante a isto. Pensei que fosse algo do futuro. Eu tonta, por pensar que a nossa ciência, tão evoluída, teria meios para combater coisas destas. E agora, viu-se. Estamos a viver isto tudo. Aqui e agora. 

O futuro?

Que vamos aprendar algo com isto tudo, eu não duvido.

Que seremos muito diferentes daqui para a frente, também não duvido.

Resta saber se para melhor, se para pior.

E esse fim de semana?

23.03.20 | Ana

Que tal?

Igual aos outros dias?

Por aqui não.

Não houve trabalhos da escola para a Maria.

Não houve teletrabalho para mim.

O pai esteve por casa (ele continua a trabalhar).

A Marta? Igual a ela própria. Rebola para a esquerda, para a direita. Muita conversa. Sestas curtas.

Foi fim de semana, e como tal, aliviou-se nos horários e obrigações.

A Maria viu mais bonecos - netflix, youtube kids, disney... Fez vídeos. Tirou fotos. Brincou muito. Jogou a bola lá fora no quintal com o pai.

Fizemos karaoke. Foi muito divertido.

Fizemos dois bolos: sábado - chocolate; domingo - tangerina.

Aos sábados, ao jantar, costumamos fazer pizza. Este não foi excepção. Mas desta vez, até a massa fizemos. 

E assim se passou mais um fim de semana. Não saímos, é verdade. Mas temos a sorte de ter quintal e de poder aproveitar o sol neste nosso bocadinho.

E o vosso, como foi?

Refeições

20.03.20 | Ana

E esta coisa de agora andarmos sempre a fazer comida?

Pior: decidir o que se faz para o comer.

O truque por aqui tem sido rentabilizar o que se tem. 

Com umas sobras de carne assada, fiz rissóis e croquetes.

Com uns bifes de peru tratei logo de 2 pratos: peru com legumes, feijão e massa; lasanha de peru com cenoura e abóbora.

Com um frango já fiz uma canja e ovos mexidos com peito desfiado. O resto vai servir para um arroz de frango.

E temos sempre sopa. 

Tenho tentado rentabilizar e por outro lado, fazer refeições mais nutritivas. Temos que ser criativos.

E vocês, como se têm organizado?

Diário 2 - temos dançado

20.03.20 | Ana

Como estão?

Se estivermos todos na mesma já não é mau. Siginifica que não estamos doentes e que o índice de sanidade mental continua assim assim.

A Marta continua a comer sem parar. Come nas refeições dela, que tento ao máximo que seja ao mesmo tempo que as nossas. Porque quando estamos a comer, também quer comer. Comecei a dar-lhe alimentos para a mão: pão, bolacha (essa já tinha sido introduzida há uns tempos), banana (abriu a goela e chorou quando acabou, como acontece mesmo quando lhe dou banana à colher) e bróculos (esses estavam ainda muito rijos, para os dentes que ela ainda não tem  - sim, a miúda tem quase 9 meses e dentes 0 ). Ri-se muito. Desconfio que está a achar esta quarentena uma maravilha. Temo pelo dia que a terei que por num carro outra vez. E voltar a creche, como será?! É melhor não pensar nisto. Rebola para a esquerda, para a direita. Ainda não gatinha. Mas já tenta movimentar-se.

A Maria tem sido (como sempre, aliás), uma agradável surpresa. Calma. Tranquila. Faz lá as suas fitas de vez em quando, mas muito menos do que julguei que aí viesse. Trabalha coisas da escola, às vezes nem com muita vontade, mas vai fazendo. Está a cumprir tudo.

Já fizemos aula de hip hop. Eu e ela. O meu jeito? É melhor nem perguntarem. Mas vamos nos divertindo.

Ontem houve ballet. Esta foi só para ela. Vestiu o seu fato de ballet e lá dançou.

A Marta riu. Gritou. Fez a festa.

Fizemos brigadeiros para o dia do pai. E as miúdas deram aos pais desenhos (as educadoras da Marta foram cautelosas e fizeram com tempo, a Marta trouxe logo para casa no último dia).

Diário 1 - primeiros dias

18.03.20 | Ana

Pensei em voltar ao blog.

Este isolamento forçado, poderia ser uma forma de desanuviar.

Mas não sobra tempo, confesso.

Teletrabalho. Bebé de 8 meses que pouco ou nada dorme de dia. Criança de 7 anos que precisar de ser muito incentivada para as tarefas escolares. Refeições a toda hora. Roupa sempre a lavar e a estender. O tempo que sobra é muito curtinho.

Mesmo assim, vim cá hoje. Saber de vós. Contar de nós.

E vou tentar vir mais vezes.

As rotinas por aqui, são as mesmas que as vossas.

Temos de trabalhar. Temos que cuidar dos miúdos. Temos que tentar alguma normalidade dentro desta anormalidade toda.

Nunca, em toda a minha vida (cliché, eu sei...) pensei que fossemos viver algo semelhante, quanto mais igual.

Acordamos de manhã. O pai sai para trabalhar. Deixa-nos pão antes de sair. Por agora o café da aldeia ainda está aberto. Pequeno-almoço às miúdas e a mim. As 9h eu e a Maria estamos a trabalhar. Até as 10h30. A Marta brinca ao pé de nós, até ir dormir a sesta da manhã. Depois do lanchinho da manhã, eu regresso ao computador às 11h e elas brincam. As 11h30 a Maria pode ver youtube kids, até as 12h15. 

Por volta do 12h começo a tratar do almoço. Almoçamos as três ao mesmo tempo, para ser mais fácil de gerir. Arruma-se a cozinha. Brincamos e conversamos até as 14h.

A Marta vai dormir a sesta e eu e a Maria vamos trabalhar. Das 14h as 15h30. 

Lanches e brincadeiras. Temos um quintal grande. Digo sempre a Maria para ir apanhar um bocado de sol, correr. E ela lá vai brincar com o nosso cão. Eu apanho sol sempre que vou ter com os cães ao quintal e apanhar e estender roupa.

As 16h30, a Maria faz uma atividade lúdica (ler, trabalhos manuais, tira fotografias, faz filmes, desenhos, jogos, etc.)

As 17h30, fazemos as duas 20 minutos de ginástica. A Marta ri as gargalhadas.

O pai chega. Vai direto para a casa de banho. Toma banho. Mete toda a roupa na máquina. E só depois se chega a nós.

Brincadeiras. Conversas. Banhos. A Maria pode ver mais 1h de youtube kids antes do jantar.

Jantar. Jogos. Dormir.

É isto. Não é obrigatório o horário, claro. As vezes anda um bocadinho ao lado. Vamos gerindo. Mas com este horário, consigo ir lidando melhor com isto tudo.

Vamos gerindo. Um dia de cada vez. Não fazemos ideia de quanto tempo isto vai durar. Não sinto a Maria ansiosa (ainda). Está tranquila dentro desta anormalidade. Hoje quis vestir um vestido. A minha primeira reação foi "que disparate", mas depois "sim, claro." Tem toda a razão. 

Tive também uma ideia de repente que correu muito bem. Perguntei-lhe: "se pudéssemos sair agora para passear, onde íamos". Ela escolheu o sítio. E as duas, a conversar, fomos descrevendo todos os passos, desde a saída de casa, à viagem, ao que fazíamos lá, a volta para casa. Foi muito bom. Correu muito bem.

Força para todos. Isto vai durar.