Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



As memórias também são isto

por Ana, em 09.05.17

Há sabores que nos ficam guardados nas memórias.

As favas da minha avó. Nunca mais consegui gostar de favas. Ninguém faz igual a ela.

Os queques do café do Sr. António. Ir almoçar ao Sr. António e comer uma fatia de molotov.

As pizzas da telepizza que eu e minha irmã conseguíamos convencer a minha avó a encomendar. [Eu sei que ainda há telepizza, mas já não sabem como aquelas]

A mousse instantânea de chocolate.

Uns biscoitos pequeninos chamados beijinhos [Que agora a miúda adora, mas eu nem os consigo comer]

Os bolos que o meu padrinho trazia da pastelaria onde era pasteleiro - pasteis de nata para o meu irmão e bolas de berlim para mim.

Sopa de feijão verde da avó. Que eu não gostava. Continuo a não gostar. O cheiro daquela sopa era único e ficou gravado para sempre em mim.

O bolo de chocolate da minha tia.

O pêssego em lata da outra avó.

Tantos. Não recuperáveis. Impossíveis de os igualar. Mas se fosse possível os ir buscar, certamente me trariam conforto.

As memórias também são isto. Feitas disto. E não se esquecem. Ficam guardadas ali no cantinho das coisas boas. Coisas que quando vividas, julgávamos não ter importância nenhuma. E que no presente atingem o estatuto de porto seguro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fui criada num ambiente familiar em que o homem é que tinha o poder, mas quem decidia, quem fazia acontecer era a mulher.

A minha mãe, mãe de três filhos, primeiro doméstica, depois trabalhadora por turnos. Sabia tudo o que se passava na escola connosco. Ia a todas as reuniões. Sabia com quem nós brincávamos. Ligava sempre para casa, quando estava a trabalhar. Não estava sempre presente, mas sabia tudo o que se passava. Contava com a ajuda preciosa da sua mãe, minha avó. Era ela que tratava de nós, quando a mãe saía tarde. Era com ela que ficavamos. Era ela que decidia, quando assim era necessário. Eu e os meus três irmãos, sabiamos bem a quem perguntar se podíamos ou não fazer alguma coisa - mãe ou avó.

A minha mãe deu-me outra mulher, que está presente todos os dias desde sempre -  a minha irmã. Lutadora, vencedora, determinada. Tantas vezes se riu da vida e a encarou com olhos de “vamos a isso”.

Na minha infância, a minha primeira amiga, aquela que eu dizia ser a minha melhor amiga, era mulher. Até ao início da minha vida adulta, sempre foi alguém importante para mim, com quem eu gostava de conversar, de estar, de saber coisas da vida dela. A mãe dela, outra mulher, sempre presente no meu dia a dia.

Na escola, não fiz grandes amigas. Fiz algumas. Com o passar dos anos, algumas foram embora de vez. Outras saíram e voltaram. E outras, não estão presentes fisicamente, mas estão emocionalmente. Não todas. Algumas. Aquelas que da forma, como encaram a vida, conseguiram mostrar-me que são “MUITO”.

Já adulta, tenho o privilégio de lidar com mulheres de grande valor. Profissionais rigorosas, “gestoras do lar” competentes, mães cuidadoras, amigas generosas.

Loucas. Divertidas. Desafiadoras. Presentes. Lutadoras. Cuidadoras. Simpáticas. Decididas. Competentes. Lindas. Mães. Irmãs. Esposas. Profissionais. Amigas. Colegas.

São assim as mulheres da minha vida. Aquelas que a vida generosamente me deu.

E aquelas que quiseram ficar e eu quis que ficassem.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ana

por Ana, em 10.02.17

Ana. Era o seu nome. Menina Ana para alguns, D. Ana para outros. Baixinha, mesmo nunca o admitindo. Era mais alta do que a Amália Rodrigues, dizia ela. Uma mulher forte. Grande. Mexida. Decidida. Cheia de vida. Os anos foram lhe tirando a vista, a locomoção, a memória. Mas deixou tantas memórias. Desde que me lembro de mim, que me lembro dela. Dos mimos. Dos dias que não me deixava ir para o largo, porque eu ainda não tinha limpo o pó. Dos cheiros da cozinha. Da mesa branca da cozinha, onde ela esticava a massa dos rissóis. Dela sentada num banco pequenino a fritar as filhoses num fogão de campismo. Dos pequenos almoços na cama, quando eu fingia estar a dormir, só para que ela lá fosse levar as torradas e a caneca de café. Do cheiro do café de cafeteira, acabado de fazer. Das noites em que eu fugia para a cama dela, quando havia trovoadas. Dos dias em que ela amuava comigo porque eu queria ir dormir a casa dos meus pais. Dos dias em que ela fazia batatas fritas [nunca mais comi batatas fritas assim]. Do abraço que lhe dei [que ela me deu] no dia em que depois da benção das fitas, fui ter com ela [ela já estava acamada, e aquele abraço, aquele reconhecimento, era o que eu mais queria]. Ana. A minha avó. A pessoa que mais impacto teve no meu ser, na minha essência.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Memórias... [das boas]

por Ana, em 26.05.16

As memórias da minha infância são (entre outras coisas) feitas de sabores e sons.

Lembro-me da cozinha da minha avó. Lembro-me da hora das refeições em casa dos meus avós.

Éramos muitos (miúdos). Eu, os meus irmãos, primas, e outros que os meus avós sempre acarinharam e que também os chamavam de avós.  O barulho á mesa era uma constante. E o meu avô, todos os dias a tentar ouvir as notícias. As notícias na telefonia, sempre. Lembro-me também, de ouvir os “parodiantes de Lisboa”. Sempre a seguir ao almoço.

As pequenas iguarias que ela cozinhava, mais ninguém consegue fazer. Eu própria, que vi tantas vezes e que a ajudei, não consigo que fique igual. O segredo, era o tempo. Havia tempo para cozinhar. Aliás, havia tempo para tudo. Até para brincar connosco. São os avós.

O meu avô era talvez dos únicos, que toda a gente na rua, sabia de quem era avô.

Os meus avós não sabiam ler, nem escrever. Não eram ricos, mas também não eram pobres. E tinham uma capacidade, com muito valor: de envolver. [Estive que tempos a pensar na palavra, nenhuma me parecia suficientemente esclarecedora. Mas é isto mesmo.] Não havia ninguém que não gostasse de estar ao pé deles. Desde miúdos, a graúdos. Quando estavam (ou quando chegavam), estavam com tudo. Estendendo aos outros, aquilo que “era deles”.

E são também estes sons que tenho nas minhas memórias. Eles com os outros. E o sentido de humor deles. E a carne assada. E as filhoses. E as idas à praia, enquanto eles ficavam no pinhal. E as almôndegas. E a tv ligada a dar o Benfica, sem som, pois ele queria ouvir o relato na telefonia. E ele a apoiar a nossa cara, enquanto um de nós contava, e os outros se escondiam. E ir lanchar ao café, com ela e as suas amigas.

E as saudades. Caramba. As saudades.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)




Comentários recentes

  • Ana

    Obrigado, Anita. Beijinhos

  • Ana

  • Ana

    Sim, felizmente. Obrigado, beijinhos.

  • Ana

    Obrigado,

  • Ana

    Obrigado,